Fala alguma coisa...
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
são paulo no rumo certo. para a vala
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
caminho do sol - minha primeira cicloviagem
domingo, 15 de janeiro de 2012
noite e sangue
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sobre o belas artes e patrimônio
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A intenção, portanto, é das mais nobres e ainda envolve uma questão inovadora no entendimento a respeito do que a cidade de São Paulo deve considerar como bem que não pode ser perdido.
Uma observação mais atenta, entretanto, que essa inovação não é integral. Pensemos na localização do cinema. É uma área nobre, ainda das mais valorizadas de São Paulo. Sob a justificativa de preservar a paisagem urbana o mais próximo possível do original - impedindo, por exemplo, a construção de edifícios altos - foram tombados bairros inteiros, como o Jardim América, Interlagos e, mais recentemente, o City Lapa. Todos elitizados desde o momento de sua concepção. Ora, parece bastante questionável a atitude de preservar somente espaços nobres, num momento em que o mercado promove a mais ferrenha especulação imobiliária já testemunhada por esta cidade. Vemos quarteirões inteiros de certos bairros indo ao chão, suas casas e sobrados simples cedendo espaço a prédios de gosto no mínimo duvidoso onde os antigos moradores e pessoas de poder aquisitivo similar não terão condição de morar. Isso para não falar dos habitantes de favelas em áreas mais centrais, esses são sistematicamente expulsos pelo própio poder público, este por sua vez atendendo aos interesses de empresários do setor imobiliário.
Que não se entenda mal, entretanto: o Belas Artes deve continuar, e continuar onde está, até pela tradição. Perdê-lo para ter em seu lugar, por exemplo, um centro comercial de qualquer natureza - pois agora ele é vizinho de uma estação de metrô - seria uma perda irreparável, mais uma. Mas sua preservação não deveria acontecer via decreto. O movimento pela preservação do cinema deveria sensibilizar o dono do prédio sobre a importância de manter o cinema ali, ainda que isto lhe traga lucros menores.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
o anjo da história
Abaixo, o Angelus Novus, de Paul Klee.

Sobre ele, Walter Benjamin, pensador antiautoritário, escreveu o seguinte (transcrito daqui):
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”
Caio Túlio afirma que "ninguém, mais do que os libertários (anarquistas), olharam para a história como o Angelus Novus", "pasmados pela barbárie que o homem produziu".
E o que tenho a dizer sobre isso?...
Na verdade, apenas digo que tal proposição é um ponto de partida para inúmeras reflexões. Primeiro, trata-se de buscar uma perspectiva distinta da História, mais ampla, não focada em datas e nem sob a necessidade de crer numa ideia de progresso ao longo dos mais distintos fatos e períodos históricos. E afinal, o que de fato é progresso? Existem eras denominadas de prosperidade em nossa História que representaram de fato melhoras nas condições de vida da população como um todo? Quem define o que se chama de progresso? As massas populares têm vez nos processos de mudanças sociais e econômicas experimentados ao longo do processo histórico? Tiveram alguma vez? Terão algum dia? Ou a história se repete sempre e não o percebemos?
quinta-feira, 28 de julho de 2011
capitães do mato, antes e agora
O caso me lembrou quase imediatamente estas cenas do recomendadíssimo filme Quanto Vale Ou É por Quilo.
Capitão-do-mato era uma função que ninguém queria, era malvista tanto pela elite, que a julgava necessária para a solução efetiva de ocorrências "indesejáveis" - como a fuga de escravos - , tanto pela população humilde, vítima de seus abusos e arbitrariedades e onde se recrutavam esses "profissionais". O capitão era o mais duro repressor direto da própria classe de origem.
E os seguranças de hoje? É o emprego que conseguem com a baixa escolaridade que, em geral, possuem. A elite precisa se sentir segura, ou, enquanto proprietária de um meio de produção, passar uma imagem de segurança para sua clientela. Aí entram em cena os guardas vestidos a rigor. O serviço pode ser visto como necessário, mas isso está longe de significar valorização da carreira. O segurança é o trabalhador explorado típico: baixos salários, treinamento insuficiente, vínculos empregatícios precários - afinal, "é tudo terceirizado". Mas foi o emprego que apareceu, e é preciso pôr comida na mesa...o negócio é fazer cara feia e sair marcando suspeitos com olhares e atitudes - sem parar para pensar que, sem a gravata e as credenciais da empresa, ele próprio seria tomado como suspeito em potencial por seus pares.
Estão incutidos nesse empregado os piores preconceitos que seus contratadores podem ter. Ele os reproduz com crueldade.
Para o capitão-do-mato que vi em ação hoje, a moradora de rua transtornada era menos que gente, merecendo, assim, ser colocada para fora, como o lixo que o restaurante produz. Se ele, segurança, se vê tão distinto daquele com quem mais se parece mais, a ponto de criminalizá-lo, o que não vai pensar sobre uma pessoa totalmente marginalizada, ele simplesmente não está preparado para lidar com alguém nessas condições. E talvez nem queira sabê-lo.
"Ah, mas você está exagerando nessa comparação, os seguranças podem ser uns brutos, mas pelo menos não matam." Não? Favor não se esquecer de uma certa ocorrência numa loja das Casas Bahia na periferia de São Paulo.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
jovens têm de sair de abrigos aos 18 anos
Aos 18 anos, jovens em abrigos perdem lar
Justiça dita que, a partir dessa idade, quem não foi adotado deve se tornar independente
ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos (Thiago Arruda)
Ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos.
Thiago Arruda
Ah, desculpe, foi um engano: achávamos que fosse um mendigo. Foi isso que disseram, no ano de 1997, em Brasília, os jovens de classe média que assassinaram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. O caso ganhou ampla repercussão. O grupo simplesmente resolveu atear fogo ao corpo do homem que dormia sob o abrigo de uma parada de ônibus da cidade. Sadismo e ódio de classe lhes ofereceram motivos suficientes para isso.
Na última sexta-feira, 15 de julho de 2011, um novo engano. Pai e filho são agredidos brutalmente em São João da Boa Vista, cidade localizada no interior de São Paulo. Os agressores julgaram que eles eram gays; julgaram, e condenaram, mesmo diante da resposta negativa das vítimas. O pai teve parte da orelha cortada. Os autores não foram presos, são desconhecidos.
O que há de comum entre o gay e o mendigo? Algo que autoriza a violência. Algo que, aos olhos de alguns, pode justificá-la. O que o pequeno engano cometido pelos jovens brasilienses e pelo grupo de paulistas revela é que alguns – alguns muitos – são a ralé, uma sub-raça, um tipo inferior e que, portanto, devem apanhar, ou mesmo morrer. Para que aprendam, ou simplesmente para que seus carrascos possam dar vazão a toda a raiva que a mera existência desses vermes lhe provoca, ao poluírem o seu mundo. A essas criaturas, não resta humanidade, muito menos direitos.
É profundamente emblemático que um dos agressores paulistas tenha sido tão claro ao afirmar: “agora que liberou, vocês têm que dar beijinho”. Quantas vezes não escutamos um “não sou preconceituoso, apenas tenho o direito de não ver dois homens [ou duas mulheres] se agarrando” ou algo parecido? No fundo, trata-se da invenção absurda do direito de que o outro não faça, não seja, não exista. É o direito que o homofóbico proclama a si mesmo de que o outro se esconda, envergonhe-se de si e da forma como ama.
É daí que vem o seu direito de atacar. Cortar a orelha do “culpado”, aliás, é um castigo antigo. Em algumas civilizações, o ato significava que o acusado não ouvira bem, não compreendera bem a “voz da lei”. De fato, os que não se submetem a heteronormatividade esquivam-se de dar ouvidos ao imperativo hegemônico da sexualidade. Frequentemente, são castigados por isso; pelos homofóbicos que proclamam sua lei, proclamam o direito de que o outro não exista e tentam fazê-la cumprir a ferro e fogo. É assim que a relação se inverte: as vítimas são punidas; os vitimizadores punem e permanecem impunes, espalhando ódio por praças, igrejas...
O machismo nunca se deu bem, é verdade, com intensas demonstrações de carinho entre pai e filho. Logo, não é tão estranho que essa relação seja confundida com a relação entre namorados do mesmo sexo. No entanto, o mais grave é que há aqueles cuja revolta, declaradamente ou não, dirige-se contra a incapacidade dos agressores em diferenciar gays de pais e filhos – ou mendigos de não-mendigos (não que os índios sejam bem tratados, não o são). Algo como “que absurdo, esses loucos atacando cidadãos de bem”. Preserva-se, assim, um silêncio; no espaço não-pronunciado, persiste, firme, forte e bruta, a autorização da violência contra os seres sub-humanos que entopem os bancos das praças ou fazem sexo porcamente: se fossem mesmo, se não se tratasse de um engano, se fossem o que achavam que eram, não faria diferença. O problema permanece. Não se deveria a isso toda a repercussão na mídia que teve o caso da última sexta-feira? Quantos gays, lésbicas, travestis e transexuais são agredidos todos os dias no Brasil? Os relatos são constantes; a repercussão, bem menos intensa. O fato de a TV Globo ter, recentemente, censurado a participação de um casal gay na trama de uma das suas novelas é também revelador nesse sentido.
Cuidado. Você pode ser confundido com um gay, uma lésbica, ou um mendigo por aí. Portanto, comporte-se.
