segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

são paulo no rumo certo. para a vala

E a semana se inicia com o anúncio oficial da (pré-)candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo. O tucano deve agora disputar as prévias que definirão o nome que seu partido lançará para o pleito; estas, no entanto, tendem a se tornar uma mera formalidade, uma vez que os demais postulantes tendem a declinar de suas pré-candidaturas - todas anteriores ao anúncio de Serra - em favor do ex-prefeito, que aparece em primeiro lugar nas pesquisas em que é citado como o candidato do PSDB, ainda que apresente o maior índice de rejeição entre todos os possíveis concorrentes.
Está na frente pois é o nome mais conhecido no páreo. A rejeição se explica pelo mesmo motivo, e também (assim esperamos) porque estamos falando de José Serra, aquele político que abandonou a mesma prefeitura paulistana seis anos atrás para disputar uma nova eleição após afirmar categoricamente - e até registrar em cartório - que não o faria, e que até ontem tinha como objetivo candidatar-se novamente à presidência da República.
Pois bem, Serra é candidato e, apesar de todas as circunstâncias que o desabonem - somem-se a estas o apoio incondicional do impopular prefeito atual e seu ex-vice, Gilberto Kassab -, tem grandes chances de se eleger. Para tanto, deve se basear no tradicional conservadorismo do eleitor paulistano, bem como polarizar a disputa com o PT, ingrediente este que tem funcionado às mil maravilhas na capital e no Estado nos últimos anos - com a ajuda de setores da mídia, diriam alguns, não sem certa razão. E lá vai São Paulo eleger aquele que vai derrotar os petistas, a qualquer custo - ainda que "qualquer custo" signifique "não há programa de governo".
Não que as demais alternativas sejam muito melhores, na realidade, ao menos entre as candidaturas mais expressivas. Que temos na disputa até o momento? O mui católico Gabriel Chalita mudou de partido duas vezes nos últimos três anos - do PSDB para o PSB e depois para o PMDB - e pode ter plagiado a si mesmo para conseguir uma nova titulação acadêmica, competindo assim em escrúpulos com Kassab, mais ocupado em fundar um partido fisiologista para chamar de seu que em administrar de fato a cidade. Soninha Francine saiu do PT e se lançou candidata a prefeita em 2008 pregando um "novo jeito de fazer política" e dois anos depois estava abraçada a José Serra na campanha eleitoral de mais triste memória da história recente, em que o fanatismo (inclusive religioso) quase decidiu quem seria o novo presidente. Netinho de Paula é outro que aparentemente só tem compromisso político consigo mesmo. Celso Russomano, do PP de Maluf, é opção que se restringe aos mais reacionários.
Por último, Fernando Haddad e o PT. Nada contra o ex-ministro da Educação, apesar dos problemas do Enem. Mas o partido foi protagonista de uma extraordinária lambança nos últimos dias. Crítico ferrenho da administração de Gilberto Kassab, até por um mínimo de coerência - que lhe tem faltado em outros Estados e a nível nacional -, o PT pleiteou o apoio do prefeito à campanha de Haddad, convidando-o inclusive para a comemoração de seus 32 anos de existência, apenas para depois ver a decepção de sua militância remanescente e amargar a "noiva" declarando fidelidade canina a José Serra. O partido comprometeu o que lhe resta de dignidade em nome de uma ação político-partidária pragmática que sequer se concretizou. (Viram como é possível fazer crítica pertinente, sem copia e cola da Veja?)
A verdade é que, após atropelar os colegas de partido, José Serra larga na frente na disputa deste ano, ainda que poucos creiam na possibilidade de o eterno candidato cumprir seu mandato até o final e, por consequência, tenha algum compromisso com a busca de soluções para os problemas desta cidade. Dos demais candidatos, embolados no pelotão posterior, também não se pode esperar muito; ou o próprio postulante ou seu partido não inspiram confiança. Vai assim se desenhando a certeza de mais quatro anos de descasos e abandono da capital paulista, mais notadamente dos locais onde a população mais pobre está. Até onde pode descer, São Paulo?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

caminho do sol - minha primeira cicloviagem


É com grande orgulho e satisfação que retorno de minha primeira viagem de bicicleta. Ontem concluí, após cinco dias, o Caminho do Sol, juntamente com mais dois amigos. A rota possui cerca de 240 quilômetros e vai de Santana do Parnaíba a Águas de São Pedro. Mas nosso pedal começou antes: encontrei em Carapicuíba o Shauan Bencks e o Paulo Straiotto e de lá saímos no final da tarde de sexta rumo ao centro histórico de Santana, primeiro local onde nos hospedamos. Isso acrescenta mais uns 20 quilômetros ao nosso percurso. Quanto ao Caminho propriamente dito, nós o iniciamos no sábado e o concluímos ontem.
Foi uma experiência incrível. Estivemos em locais que jamais cogitaria adentrar, menos ainda montado numa bicicleta. Em nossa rota, bares pitorescos, pequenas pousadas, casarões coloniais, imensas plantações de cana e outros produtos agrícolas, pastagens, trechos de mata...chegamos a esses locais por estradas nas mais diferentes condições, desde o mais liso asfalto até um piso de areia quase intransponível em dias de chuva. E as paisagens eram maravilhosas.
Travamos contato com pessoas interessantíssimas, sem as quais a viagem não teria sido a mesma: outros ciclistas fazendo o mesmo percurso, as pessoas que tão bem nos receberam em pousadas e demais pontos onde estivemos de passagem, curiosos que vinham com admiração saber daquelas pessoas montadas em bicicletas tão carregadas sobre nossos locais de origem e destino, alguns peregrinos - pois, sim, o Caminho do Sol também é trilhado por gente a pé.
Cinco dias, muitas subidas fortes em nosso caminho, alguns contratempos envolvendo avarias nas bicicletas, fortes chuvas enlameando estradinhas - e bikes...e ciclistas. A chegada a Águas de São Pedro foi muito celebrada, e não poderia ter sido diferente. Um desafio e tanto, com toques de aventura, vencido com louvor. Ficam as lembranças e a vontade de pedalar ainda mais por estas estradas. Opções de roteiros para novas cicloviagens não faltam.
Por enquanto, é isto. Um relato mais detalhado dessa empreitada em breve estará disponível no blog Shauan de Bicicleta, com todas as fotos e vídeos que fizemos - é muito material mesmo! - e talvez eu mesmo me dedique a escrever sobre esta viagem fantástica. Fiquem ligados.
E para saber mais sobre o Caminho do Sol, visitem http://caminhodosol.org.






domingo, 15 de janeiro de 2012

noite e sangue

As paredes cobertas de sangue e restos de cadáveres. Todos mortos por ela. Vários deles, durante várias noites, tantos conseguisse acertar. Acaba de tirar a vida de mais um. Sente-se uma assassina, talvez seja mesmo, pensa. Mas não havia escolha. Era uma decisão lógica. Vivos, ão a deixariam dormir. Infernizariam sua noite. Ou eles ou eu. E não serei eu.
E eles são tantos. inúmeros. sua população está fora de controle. Todos sabemos disso. Convence-se de que está fazendo um bem. não só para si mesma, mas para todos. É para o bem comum. Certeza de que me entendem. E o que faz ainda é pouco, eles se proliferam de modo absurdo. no fundo, isto é só paliativo. Em pouquíssimo tempo haverá mais deles, aos montes. Espera que todos estejam fazendo sua parte.
E, na realidade, por que negar? Sente um prazer imenso ao matá-los. Urra de modo ensandecido ao atingi-los. Mira satisfeita a mancha de sangue nas mãos antes de lavá-las. É a confirmação de seu poder, de sua superioridade. Não foi o que lhe ensinaram? Estamos acima deles. Trilhamos um caminho glorioso, ainda que tenhamos tropeçado em alguns momentos. Deslizes que permitiram, por exemplo, que eles se espalhassem desse modo descontrolado. Mas ainda haveremos de vencer. É nosso destino.
Despede-se da família e vai se deitar. Está exausta e satisfeita. Dormirá em paz.
Um ruído familiar e um levíssimo toque. Acorda de súbito na madrugada. Surpresa e indignada. Não consegue se perdoar.
Não havia vasculhado por todos os cantos? Sua pontaria não tinha sido certeira? Tantas noites de prática...
Tanto sangue...deles...não o meu, não o meu...
Levanta-se com uma almofada em punhos. Acende a luz. Precisa limpar essas paredes pela manhã.
Como deixei esse último pernilongo escapar?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

sobre o belas artes e patrimônio


O caso do cine Belas Artes ainda não terminou. Esta semana, o Conpresp, órgão municipal de proteção do patrimônio na cidade de São Paulo, deve votar o pedido de tombamento do complexo, o qual, uma vez aprovado, impediria o imóvel que por anos abrigou o cinema - hoje fechado - ter outro destino que não o de abrigar salas de projeção. A pedido do próprio Conpresp, a Procuradoria-Geral do Município foi responsável pela emissão de parecer acerca da preservação do espaço, e se manifestou de forma contrária a essa ação. A permanência do cinema em seu tradicional endereço, entre a Paulista e a Consolação, parece, portanto, ameaçada.
Fundamenta o pedido de preservação do Belas Artes não um possível valor arquitetônico ou urbanístico de sua construção, como é de praxe, mas o patrimônio imaterial que o cinema representa: haveria de se tombá-lo como espaço de fruição de uma produção cinematográfica diferenciada. Trata-se também de um dos poucos cinemas "de rua" remanescentes na capital, engolidos que foram pela explosão de salas multiplex de shopping centers.
A intenção, portanto, é das mais nobres e ainda envolve uma questão inovadora no entendimento a respeito do que a cidade de São Paulo deve considerar como bem que não pode ser perdido.
Uma observação mais atenta, entretanto, que essa inovação não é integral. Pensemos na localização do cinema. É uma área nobre, ainda das mais valorizadas de São Paulo. Sob a justificativa de preservar a paisagem urbana o mais próximo possível do original - impedindo, por exemplo, a construção de edifícios altos - foram tombados bairros inteiros, como o Jardim América, Interlagos e, mais recentemente, o City Lapa. Todos elitizados desde o momento de sua concepção. Ora, parece bastante questionável a atitude de preservar somente espaços nobres, num momento em que o mercado promove a mais ferrenha especulação imobiliária já testemunhada por esta cidade. Vemos quarteirões inteiros de certos bairros indo ao chão, suas casas e sobrados simples cedendo espaço a prédios de gosto no mínimo duvidoso onde os antigos moradores e pessoas de poder aquisitivo similar não terão condição de morar. Isso para não falar dos habitantes de favelas em áreas mais centrais, esses são sistematicamente expulsos pelo própio poder público, este por sua vez atendendo aos interesses de empresários do setor imobiliário.
Leve-se em conta também que a existência de cinemas como o Belas Artes, com uma programação em geral avessa à lógica do pipocão hollywoodiano, também atende a uma necessidade de mercado - menos massificado que o dos blockbusters, por exemplo, mas ainda assim mercado. Embora houvesse as sessões especiais e os filmes que permaneciam em cartaz por muito mais tempo que o habitual, o foco eram as novidades, os filmes cult recém acolhidos pela crítica. Nesse sentido, talvez sejam ainda mais interessantes como formadores de apreciação cinematográfica além da hegemônica espaços especializados em mostras e retrospectivas, em boa parte públicos, como as salas de centros culturais, a Cinemateca e a Galeria Olido - este último um antigo cinema de rua no centro que hoje pertence à Prefeitura - que exibem clássicos e filmes fora do circuito comercial, inclusive, a preços mais acessíveis.
Que não se entenda mal, entretanto: o Belas Artes deve continuar, e continuar onde está, até pela tradição. Perdê-lo para ter em seu lugar, por exemplo, um centro comercial de qualquer natureza - pois agora ele é vizinho de uma estação de metrô - seria uma perda irreparável, mais uma. Mas sua preservação não deveria acontecer via decreto. O movimento pela preservação do cinema deveria sensibilizar o dono do prédio sobre a importância de manter o cinema ali, ainda que isto lhe traga lucros menores.
Mas muito mais merece ser preservado. A discussão deve ir além: a ação das incorporadoras e construtoras precisa ser questionada com urgência. Patrimônio não é só o espaço "chique" frequentado por gente de bem. É tudo que o cidadão reconhece como objeto de fruição sua e da coletividade: o cinema tradicional que tem público cativo, a tranquilidade do bairro de classe média baixa com suas construções baixas, o direito da população mais humilde - ou, neste caso específico, da fração dela que consegue habitação em áreas centrais - de não ser obrigada a viver num local que a obrigue a se deslocar para chegar ao trabalho por seis, sete horas horas diárias. Tudo isto é a cidade, é aquilo com que podemos nos relacionar de forma mais ou menos democrática e igual.
Infelizmente, no dia de hoje isso soa idealista demais, a única ordem vigente é a dos ganhos financeiros rápidos e exorbitantes. E para garantir que ainda sobre algo que signifique algo às pessoas nesta São Paulo às vezes difícil de considerar cidade, devido à falta de identificação de seus moradores com a realidade que os rodeia, só na base da canetada.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

o anjo da história

Terminei ainda agora de ler O Que É O Anarquismo, da coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense. O autor é Caio Túlio Costa.
Mas não quero aqui tratar sobre a qualidade do livro, nem mesmo refletir sobre minhas posições políticas - saber que leio sobre anarquistas já deve ser assustador o bastante (risos). Trago aqui uma imagem a que fui apresentado ao final desta minha leitura, composta por um quadro e uma célebre interpretação deste, que alguns devem conhecer.
Abaixo, o Angelus Novus, de Paul Klee.



Sobre ele, Walter Benjamin, pensador antiautoritário, escreveu o seguinte (transcrito daqui):

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”


Caio Túlio afirma que "ninguém, mais do que os libertários (anarquistas), olharam para a história como o Angelus Novus", "pasmados pela barbárie que o homem produziu".

E o que tenho a dizer sobre isso?...

Na verdade, apenas digo que tal proposição é um ponto de partida para inúmeras reflexões. Primeiro, trata-se de buscar uma perspectiva distinta da História, mais ampla, não focada em datas e nem sob a necessidade de crer numa ideia de progresso ao longo dos mais distintos fatos e períodos históricos. E afinal, o que de fato é progresso? Existem eras denominadas de prosperidade em nossa História que representaram de fato melhoras nas condições de vida da população como um todo? Quem define o que se chama de progresso? As massas populares têm vez nos processos de mudanças sociais e econômicas experimentados ao longo do processo histórico? Tiveram alguma vez? Terão algum dia? Ou a história se repete sempre e não o percebemos?
Não necessitamos todos nos tornar libertários se não o quisermos, mas creio termos muito a aprender uma vez adquirida essa visão em perspectiva de nosso passado.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

capitães do mato, antes e agora

Foi ainda hoje, no final do meu almoço. Uma mendiga apareceu na praça de alimentação da galeria onde fica o restaurante onde fui comer e, ao passar por alguma mesa, tentava tocar no prato de alguém. Eu a vi fazer isso de perto, ela quase pegou um pastel de alguém que estava sentado numa mesa ao lado da minha. A mim pareceu óbvio que ela não estava, como se diz, em seu juízo perfeito: talvez tivesse alguma deficiência intelectual, ou a vida na rua a afetou, não tenho como saber. Enfim, não podia responder pelo que fazia.
Ocorre que, pouco tempo depois, eu a vi ser tirada a força do local. E quando digo local, é a galeria mesmo. Puxada pelo braço, empurrada - isso até que os dois sumissem da minha vista, depois, não sei. O autor do serviço sujo foi um desses seguranças engravatados. Como, aliás, não poderia ser diferente.
O caso me lembrou quase imediatamente estas cenas do recomendadíssimo filme Quanto Vale Ou É por Quilo.





Capitão-do-mato era uma função que ninguém queria, era malvista tanto pela elite, que a julgava necessária para a solução efetiva de ocorrências "indesejáveis" - como a fuga de escravos - , tanto pela população humilde, vítima de seus abusos e arbitrariedades e onde se recrutavam esses "profissionais". O capitão era o mais duro repressor direto da própria classe de origem.
E os seguranças de hoje? É o emprego que conseguem com a baixa escolaridade que, em geral, possuem. A elite precisa se sentir segura, ou, enquanto proprietária de um meio de produção, passar uma imagem de segurança para sua clientela. Aí entram em cena os guardas vestidos a rigor. O serviço pode ser visto como necessário, mas isso está longe de significar valorização da carreira. O segurança é o trabalhador explorado típico: baixos salários, treinamento insuficiente, vínculos empregatícios precários - afinal, "é tudo terceirizado". Mas foi o emprego que apareceu, e é preciso pôr comida na mesa...o negócio é fazer cara feia e sair marcando suspeitos com olhares e atitudes - sem parar para pensar que, sem a gravata e as credenciais da empresa, ele próprio seria tomado como suspeito em potencial por seus pares.
Estão incutidos nesse empregado os piores preconceitos que seus contratadores podem ter. Ele os reproduz com crueldade.
Para o capitão-do-mato que vi em ação hoje, a moradora de rua transtornada era menos que gente, merecendo, assim, ser colocada para fora, como o lixo que o restaurante produz. Se ele, segurança, se vê tão distinto daquele com quem mais se parece mais, a ponto de criminalizá-lo, o que não vai pensar sobre uma pessoa totalmente marginalizada, ele simplesmente não está preparado para lidar com alguém nessas condições. E talvez nem queira sabê-lo.
"Ah, mas você está exagerando nessa comparação, os seguranças podem ser uns brutos, mas pelo menos não matam." Não? Favor não se esquecer de uma certa ocorrência numa loja das Casas Bahia na periferia de São Paulo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

jovens têm de sair de abrigos aos 18 anos

Essa reportagem me deixou chocado. Primeiro, tenha-se em mente que nem todo menor abandonado tem a chance de ser adotado, ou mesmo de ir para um abrigo. Agora, dou-me conta que nem mesmo a sorte de conseguir uma vaga num programa social público é garantia de que esses jovens consigam se estabelecer por si mesmos e escapem de ir parar...na rua, que essa era a intenção dede o início. Ao chegar a época de deixar os abrigos, eles enfrentam a insegurança de não saberem o que será de suas vidas após abandonarem a segurança do mundo que conhecem - situação que todo jovem em algum momento enfrenta, mas neste caso agravada pela situação de vulnerabilidade em que os abrigados se encontram.


Ler também: uma república na Vila Leopoldina recebe jovens saídos de abrigos sem cobrar aluguel e o depoimento de uma jovem moradora prestes a perder a vaga oferecida pela Prefeitura.

ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos (Thiago Arruda)

Reproduzo, a seguir, um ótimo texto da autoria de Thiago Arruda, que aborda o hediondo caso do pai que foi atacado e teve uma orelha quase totalmente arrancada por agressores que acharam que ele e o filho eram homossexuais porque estavam abraçados. O flagrante desrespeito aos direitos de quem é considerado menos que humano encontra paralelo num outro ato covarde ocorrido catorze anos atrás, quando criminosos abjetos atearam fogo a um índio que dormia num ponto de ônibus porque (?) foi confundido com um mendigo.
Chama atenção a baixa repercussão do caso desta semana - um crime de motivações claramente homofóbicas - no noticiário da Rede Globo, que decidiu recentemente abortar da novela Insensato Coração uma série de cenas - algumas já gravadas - envolvendo o casal gay Eduardo e Hugo, sob o pretexto de não "exaltar" a homossexualidade nas novelas. Ora, a verdade é que a emissora não quis correr risco de perder audiência e anunciantes com o tema, num caso ainda mais flagrante de colocar negócios acima de gestos humanitários do que o da propaganda da Vivo, sobre o qual comentamos recentemente. O desserviço é tamanho que compromete até mesmo o jornalismo, como se a denúncia veemente de homofobia e demostrações de afeto fossem "levantar bandeira". Bem, para a alta cúpula Globo, aparentemente é; alguém graúdo deve ter decidido que na novela já se tinha ido longe demais e a ordem foi puxar o freio do antipreconceito em toda a programação.
Enfim, que a luta por direitos humanos para TODOS os seres humanos prossiga sem o apoio de grandes corporações, através, por exemplo, da internet, fonte do texto a seguir e meio onde todos, não somente uma minoria interessada em fazer mais dinheiro, podem expressar sua voz.



Ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos.


Thiago Arruda

Ah, desculpe, foi um engano: achávamos que fosse um mendigo. Foi isso que disseram, no ano de 1997, em Brasília, os jovens de classe média que assassinaram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. O caso ganhou ampla repercussão. O grupo simplesmente resolveu atear fogo ao corpo do homem que dormia sob o abrigo de uma parada de ônibus da cidade. Sadismo e ódio de classe lhes ofereceram motivos suficientes para isso.

Na última sexta-feira, 15 de julho de 2011, um novo engano. Pai e filho são agredidos brutalmente em São João da Boa Vista, cidade localizada no interior de São Paulo. Os agressores julgaram que eles eram gays; julgaram, e condenaram, mesmo diante da resposta negativa das vítimas. O pai teve parte da orelha cortada. Os autores não foram presos, são desconhecidos.

O que há de comum entre o gay e o mendigo? Algo que autoriza a violência. Algo que, aos olhos de alguns, pode justificá-la. O que o pequeno engano cometido pelos jovens brasilienses e pelo grupo de paulistas revela é que alguns – alguns muitos – são a ralé, uma sub-raça, um tipo inferior e que, portanto, devem apanhar, ou mesmo morrer. Para que aprendam, ou simplesmente para que seus carrascos possam dar vazão a toda a raiva que a mera existência desses vermes lhe provoca, ao poluírem o seu mundo. A essas criaturas, não resta humanidade, muito menos direitos.

É profundamente emblemático que um dos agressores paulistas tenha sido tão claro ao afirmar: “agora que liberou, vocês têm que dar beijinho”. Quantas vezes não escutamos um “não sou preconceituoso, apenas tenho o direito de não ver dois homens [ou duas mulheres] se agarrando” ou algo parecido? No fundo, trata-se da invenção absurda do direito de que o outro não faça, não seja, não exista. É o direito que o homofóbico proclama a si mesmo de que o outro se esconda, envergonhe-se de si e da forma como ama.

É daí que vem o seu direito de atacar. Cortar a orelha do “culpado”, aliás, é um castigo antigo. Em algumas civilizações, o ato significava que o acusado não ouvira bem, não compreendera bem a “voz da lei”. De fato, os que não se submetem a heteronormatividade esquivam-se de dar ouvidos ao imperativo hegemônico da sexualidade. Frequentemente, são castigados por isso; pelos homofóbicos que proclamam sua lei, proclamam o direito de que o outro não exista e tentam fazê-la cumprir a ferro e fogo. É assim que a relação se inverte: as vítimas são punidas; os vitimizadores punem e permanecem impunes, espalhando ódio por praças, igrejas...

O machismo nunca se deu bem, é verdade, com intensas demonstrações de carinho entre pai e filho. Logo, não é tão estranho que essa relação seja confundida com a relação entre namorados do mesmo sexo. No entanto, o mais grave é que há aqueles cuja revolta, declaradamente ou não, dirige-se contra a incapacidade dos agressores em diferenciar gays de pais e filhos – ou mendigos de não-mendigos (não que os índios sejam bem tratados, não o são). Algo como “que absurdo, esses loucos atacando cidadãos de bem”. Preserva-se, assim, um silêncio; no espaço não-pronunciado, persiste, firme, forte e bruta, a autorização da violência contra os seres sub-humanos que entopem os bancos das praças ou fazem sexo porcamente: se fossem mesmo, se não se tratasse de um engano, se fossem o que achavam que eram, não faria diferença. O problema permanece. Não se deveria a isso toda a repercussão na mídia que teve o caso da última sexta-feira? Quantos gays, lésbicas, travestis e transexuais são agredidos todos os dias no Brasil? Os relatos são constantes; a repercussão, bem menos intensa. O fato de a TV Globo ter, recentemente, censurado a participação de um casal gay na trama de uma das suas novelas é também revelador nesse sentido.

Cuidado. Você pode ser confundido com um gay, uma lésbica, ou um mendigo por aí. Portanto, comporte-se.