quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência Negra "versus" consciência humana

Vocês aí, compartilhando no Facebook aquela frase aparentemente tão esclarecida e “pra frentex” sobre um “dia da consciência humana”: não é somente a vocês que se dirigem estas linhas, mas peço-lhes atenção redobrada ao que tenho a dizer.
Gostaria que me esclarecessem em que ponto uma proclamada consciência humana exclui, por si só, o Dia da Consciência Negra. Ou qualquer data que faça alusão à luta por autoafirmação e respeito de grupos que foram vítimas de opressão ao longo da história pelo simples fato de serem o que são.
Eu imagino a boa intenção de quem leu inicialmente sobre consciência humana e pensou “sim, é isso mesmo!” Porque somos todos humanos, não é verdade? Somos todos iguais...certo?
É, deveríamos ser. Com efeito, nascemos todos iguais, Homo sapiens sapiens, as mesmas características que, do ponto de vista biológico, nos distinguem como espécie. Todos pertencentes à mesma espécie. Humanos, demasiado humanos, mesmo apesar de aparentes distinções externas. Cor da pele é uma delas, mera diferença superficial, incapaz de nos separar até mesmo entre raças, como já se tomou num passado não tão remoto.
E aí chegamos a um ponto de interesse: ao longo de nossa história, a pigmentação da pele foi sempre tomada pelo conjunto da sociedade como um insignificante detalhe diante da constatação de que somos todos humanos? Não foi, não é mesmo? Já citamos a ideia equivocada de raça, lembremo-nos também da escravidão a qual foi submetida à população africana, o Apartheid na África do Sul, a segregação institucionalizada nos Estados Unidos até a segunda metade do século vinte, entre outros exemplos.
Voltemos o olhar ao Brasil, pois o Dia da Consciência Negra é “coisa nossa”. Primeiro, a população negra foi escravizada. Houve focos de resistência, como o Quilombo de Palmares, liderado por Zumbi, cujo assassinato foi o motivo pelo qual foi escolhido o dia 20 de novembro para o feriado. No final do século dezenove, a escravidão caducou, precisava acabar e acabou, não tanto por “nobreza” da Princesa Isabel, mas porque era já defunta viva. E o negro? Quem se lembra do negro nos livros de história depois da abolição? Integrou-se de forma efetiva a uma sociedade que o recebeu de braços abertos? Viveu ele feliz para sempre?
Para sempre, entende-se, alcança os dias atuais. Vamos questionar, então, o tempo presente.
Os negros recebem os mesmos salários de brancos que realizam tarefas remuneradas similares? O rendimento médio dessas duas etnias, independentemente da função exercida, é similar?
Negros, mulatos e pardos – esse último termo me incomoda muito, aliás – constituem, juntos, a maioria da população brasileira. Devemos supor, então, que eles representam a maioria também em conjuntos representativos em nossa sociedade? São os negros e mestiços a maior parte dos alunos em universidades públicas? Em cargos de comando em empresas e instituições, sejam públicas ou privadas? O Supremo Tribunal Federal tem um ministro branco e o restante é negro?
Policiais tratam da mesma maneira brancos e negros em suas abordagens? Os jovens negros têm as mesmas probabilidades de morrerem de forma violenta que jovens brancos?
O princípio de igualdade explicitado anteriormente não é respeitado. Por conta disso, grupos minoritários vêm a público reclamar pelo direito à dignidade e a uma existência plena que lhes são simplesmente negados. O ser sujeito à discriminação não quer privilégio, pois ele ainda sequer é tratado como igual. O Dia da Consciência Negra, a causa indígena, o movimento LGBT, o dia da Visibilidade Trans* - todos eles existem para lembrar que somos todos humanos, sim.
Consciência humana de verdade é poder se colocar no lugar do outro, no lugar do oprimido, entender por que ele faz questão de explicitar sua diferença: é porque ele reclama uma igualdade que ele não vivencia.
Parem para pensar. Afinal, a própria palavra “consciência” remete à razão, ao ato de refletir determinadas ações ou ideias, sejam as nossas próprias, sejam aquelas cristalizadas em nossa sociedade.
Pois não é privilégio dos negros pensar sobre o porquê de um Dia da Consciência Negra. Fica o convite. A todos os humanos.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

protesto contra o aumento da passagem: o (pouco) que vi, o que penso

O Movimento Passe Livre organizou um protesto contra o aumento da passagem de ônibus aqui em São Paulo. Até onde consegui acompanhar, os manifestantes tinham fechado a 9 de Julho queimando três montes de lixo que obstruíam todas as pistas da avenida no sentido bairro (nossa, estou parecendo o boletim do trânsito). Os ônibus não conseguiam sair do Terminal Bandeira, onde marcavam presença alguns jovens que também protestavam, chamando o povo a participar, “vir contra o aumento”. Avenida fechada, a marcha começou, batucada, hinos, palavras de ordem, fogos de artifício. Acompanhando tudo, a polícia. A pé, em viaturas, em helicópteros. Fazendo pouco, olhando sério, dedo em riste. Parada, andando rápido, sem pressa...em formação. De guerra?Vendo tudo, de onde estivesse, inclusive do alto, jogando luzes contra os prédios. Tentando impor o medo. Fazendo o que polícia serve para fazer.
Saí do terminal, passei pela estação de metrô fechada. Andei. Andei por meia hora, consegui pegar o último ônibus que passou pelo ponto antes da marcha chegar, uma faixa “por um mundo sem catracas” trazida pelos que vinham à frente. Dois carros da polícia tinham acabado de fazer manobras assustadoras e encostado ali perto. Estávamos a poucos metros do túnel sob a avenida Paulista. Corri para pegar o ônibus, o motorista se afastou do local a toda velocidade. Daí não sei mais. Dentro do coletivo alguém falou em bombas de efeito moral atiradas pela polícia. Bem, polícia.
Os dias têm sido muito cansativos, só queria chegar logo em minha casa. Não pude. Mas digo com toda a calma e convicção de quem andou e pensou a respeito disso tudo: é bonito demais ver as pessoas na rua, andando juntas, para se fazer ouvir, para protestar contra uma situação que nos atinge a todos. Porque todo mundo quer chegar logo em casa. Inclusive quem está de ônibus. Então o protesto nos diz respeito a todos, sim. Então quem gritou e marchou – e certamente apanhou depois, certo, polícia? – contra o aumento só aparentemente está prejudicando o trabalhador que não tem nada a ver com a história. Porque, raios é sobre o trabalhador essa história, É ele quem pagará R$ 3,20 a cada viagem em ônibus lotados, mal conservados – por quantos coletivos quebrados passamos ao atravessar a cidade em um deles, esperando que o nosso não seja o próximo? E eu nem falei das ruas congestionadas. E eu nem falei que até nos corredores de ônibus tem congestionamento. O protesto é ruim? Atrapalha? E a vida, está boa?

Ver o povo marchar é bonito, faz pensar que as coisas poderiam ser diferentes. Imaginem todos indo para a rua, todos por um, o um que é todos. Porque a resposta para a pergunta lá de cima...nós não gostamos dela. E queremos lutar para mudar isso. Juntos. O que você vai fazer, Estado? Cadê sua polícia agora? Será que ela pode contra nós todos?...Mas é uma impressão que dura pouco. Porque não vai ser diferente. A gente tem essa dificuldade de entender as motivações do outro. Mesmo quando o que o outro faz é pensando...na gente. A gente pensa na gente, mas é outra gente. É a gente mesmo! A gente pensa em chegar logo em casa para descansar para amanhã para trabalhar e assim manter o emprego e assim ter dinheiro para comprar a roupa daquela marca que todo mundo está usando ou trocar de novo o celular por um mais “top”, com aquele aplicativo que é muito da hora. E esses baderneiros que apanhem mesmo. Fechando ruas. Atrapalhando a vida de todo mundo. Atentando contra o sagrado direito de ir e vir. Porque eu sou livre...trabalho e compro as coisas que eu quero. Esse trânsito e esse ônibus lotado? Ah, faz parte. O mundo não tem catracas...se liga...

sábado, 6 de outubro de 2012

justos?




"De novo essa capa ridícula?", o leitor vai pensar. Preciso dela como chamariz, entretanto, como já se vê, prosseguindo este texto.

Peço a atenção de vocês para uma história trágica e verídica, consequência esta de uma tragédia muito maior, em tudo relacionada com a imagem postada.

O tio de uma conhecida de minha mãe, de família muito simples, vendia pipocas numa calçada em Pinheiros. Por muitos anos, ele saiu de sua casa no extremo sul da cidade, chegava com seu carrinho ao ponto habitual para ganhar a vida, como se diz. Há poucos dias, a Prefeitura de São Paulo decidiu que aquele carrinho de pipocas estava proibido de permanecer ali. E agora? Anos e anos fazendo o mesmo trabalho, no mesmo lugar, assim forçado a abandonar a vida que escolhera, o mundo que
conhecia...o que fazer? Aquele senhor se desesperou. Desestruturado psicologicamente como devia se encontrar, subiu em um prédio - o que me remete ao fato de que Pinheiros é alvo de intensa especulação imobiliária - e se jogou de lá. Está morto.

Em vista disso, não posso deixar de me lembrar daquela capa horrorosa da Veja São Paulo, com uma foto do prefeito Gilberto Kassab, que amarga - com justiça - um dos maiores índices de rejeição entre todos os outros mandatários desta cidade e faz o
questionamento esdrúxulo: "Será que estamos sendo justos com ele?" Pergunto-me quantas vidas de pessoas honestas Kassab prejudicou com suas proibições insensatas, absurdas. Comerciantes ambulantes e artistas de rua se viram, em diversos episódios ao longo da lamentável administração atual, ameaçados, constrangidos, humilhados, muitas vezes mediante uso da força fardada, enquanto não faziam nada além de seu trabalho. Feirantes foram obrigados a deixar as ruas mais cedo para não atrapalhar um trânsito que na realidade só piorou com a proibição da circulação de caminhões e de ônibus fretados, bem como o investimento pífio em transporte público - e a tarifa sobe todo ano! - que nos prejudica a todos.

(Isso para não falar dos moradores de rua e dos usuários de crack que, em vez da assistência social e psicológica de que poderiam necessitar, vivenciaram o mais puro terror, sofrendo com a perseguição da polícia e dos guardas civis.)

(Será que mais alguém, em desespero, tirou a própria vida por causa do que Kassab fez?...)

"Será que estamos sendo justos com ele?", pergunta a suspeitíssima Veja. Ora, entendo que, ao manifestarmos com contundência nossa ojeriza a essa gestão autoritária e perversa, nós, paulistanos, estamos sendo muito justos, sim. Já a família do falecido dono de carrinho de pipocas não está. Para ser justa com Gilberto Kassab, ela deveria, no mínimo, entrar com uma ação na Justiça pela tragédia desencadeada por mais uma de suas tantas arbitrariedades. E lutar até o fim por uma condenação desse senhor. Pois ele não
governou para pessoas. Membro da associação comercial da cidade, governou para os grandes negociantes a quem deve tudo, inclusive o mandato que (enfim!) se encerra -  sobretudo as empreiteiras, suas maiores patrocinadoras de campanha. Kassab tomou decisões visando à "limpeza" do espaço público, para a retirada de tudo o que parece feio e desagradável às elites e ao elitismo que representa.

Neste caso, "ser justo", portanto, significaria fazer Kassab pagar, pelas mãos de quem sofreu diretamente por suas ações.

A cidade não pode ser dividida entre aqueles que querem construir prédios e os que podem pagar para morar neles. Porque há muitos - MUITOS - que não se encaixam nesse esquema. E a solução não é se isolar atrás de muros de condomínios para se "proteger" desses excluídos. Nem deixar, por um lapso, que um deles atravesse os muros e busque, para o seu problema específico, remédio tão definitivo que, uma vez utilizado, não há volta.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

acaso

Quais as chances de ter uma música na cabeça e ao apanhar o encarte do CD abri-lo justamente na letra dessa canção?

Quais as chances de isso acontecer no meio de uma madrugada fria em que se levanta desesperançado, entregue ao fato de que o sono que parecia tão necessário ao corpo e à mente se esvaiu?

Quais as chances de desenterrar uma canção específica do inconsciente?

Quais as chances de a tal canção falar clara e abertamente de amor?...

Quais as chances de você entender o que eu sinto?

Quais as chances de você SENTIR o que eu sinto?...

Você, o motivo desta noite mal dormida, o motivo da demora em pegar no sono, apesar do cansaço que insisto em dizer que sinto.

Por que é que estou tão cansado?...

Eu sei...e nisto não há nada de acaso.

Ah, estou cansado da solidão...estou cansado de as músicas evocarem o amor que tanto quero viver.

Quais as chances de minha busca inglória enfim ter acabado?

Quais as chances de minha trajetória errática terminar em seus braços?...

O acaso tem esse incompreensível poder de tornar as circunstâncias tão particulares e maravilhosas.

Minha vida cruzar com outra, a sua...

Tudo está em minha mente, entretanto. Nada aconteceu de fato. Apenas neste coração.

Se este encontro mexeu tanto comigo, mais provável ter sido assim por meu próprio desejo de ver algo importante e, sobretudo, significativo nesta situação toda.

Quero uma razão para você estar onde está.

Não há.

Há quem diga que acaso não existe. Será?

Ouça a canção comigo e entenda:

"Eu não vim aqui/pra entender/ou explicar/nem pedir nada pra mim/não quero nada pra mim..."

Não quero nada pra mim.

Não me arrogo o direito de querer nada. Não cobrarei do acaso - nem de você - o que dele não posso exigir. Não cobrarei de você o que não pode me dar.

Vou procurar em outro lugar. Talvez eu encontre. Assim, por acaso.


***

Essa palavra, arrogar, eu já tinha mas jamais havia utilizado. Não tinha certeza de como utilizá-la. Quais as chances de conferir o significado de uma palavra no dicionário e encontrar entre uma lista de pesquisas alheias, prévias - e aleatórias - a palavra amor?



a morte

A morte...tão misteriosa quanto familiar...tão insondável quanto certa...a única certeza...nesse mundo racional que criamos, buscamos sempre razões e certezas...a morte é a única certeza...e estamos sempre fugindo dela...fugindo da nossa única e comum certeza...não podemos sequer falar na morte...ela que aconteça com os outros...vamos adiar sua inevitabilidade enquanto for possível...na verdade...vamos esquecer a sua inevitabilidade...julgamo-nos tão melhores...somos humanos...somos racionais...mas morremos também...como qualquer outra criatura viva...como qualquer outro animal...então criamos uma morte própria para nós...quando morremos, é que vamos para algum lugar...para onde?...depende de onde viemos e da morte que convencionamos...mas só saberemos ao certo para onde vamos quando nos formos...formos para onde?...existe onde?...esse verbo exige mesmo um complemento?...e não é verdade que os mortos simplesmente se vão...pois os sentimos mesmo após sua morte...a morte cria presenças ausentes...já se foram, mas demoramos a reconhecer...na verdade, dependendo de quem for, a presença ausente é sentida por muito tempo...por vezes ela é invocada...e sentimos que ela sempre estará ali...estará não estando...tão misteriosa é a morte...tão familiar...também morreremos mas não iremos embora...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

vivaldi

Meu primeiro CD de música erudita foi também o primeiro CD que apareceu em casa. Havia sido um presente ganho por meu pai, se não me engano, de alguém no trabalho. É uma gravação de três concertos de Vivaldi, entre eles, As Quatro Estações.
O disco, importado, data de 1991 e deve ter chegado em casa nesse mesmo ano, ou no seguinte. O preço de ter sido nosso primeiro CD foi que simplesmente não tínhamos onde tocá-lo. Como ninguém manifestasse, à época, um franco interesse em escutar Vivaldi ou qualquer outro desses grandes compositores - apesar de meu tímido gosto por música instrumental, não necessariamente erudita, na infância -, o cdzinho teve de esperar.
E esperou mesmo. Somente no final de 1995 adquirimos o primeiro aparelho de som com CD player - que orgulhosamente ficou em meu quarto; tantas emoções me proporcionou! Mas ainda levou um bom tempo para tirar a poeira daquele primeiro disquinho da casa. 
Foi numa noite de sábado, não me lembro o ano. Eu estava sozinho em casa (por quê?) e simplesmente me veio a vontade de pôr o Vivaldi para tocar. Tirei o disco do "esconderijo" dele, abri a gaveta do tocador de CD e fui em frente.
As Quatro Estações era uma única e enorme primeira faixa do CD, mais de 41 minutos de duração. As outras duas músicas tinham oito e dez minutos cada. Será que conseguiria ouvir aquilo tudo um dia? Comecei do começo. Foi quando pela prmeira vez ouvi o primeiro tema da Primavera - a música do sabonete Vinólia - de maneira voluntária. Nada mal. Nada mal mesmo. Vamos em frente, apagar a luz para dar "mais clima" e deitar na cama - ei, tomara que eu não durma.
Creio que cheguei até o final do Verão nessa primeira orelhada. Eu só vim a conhecer os movimentos do concerto depois; o encarte do CD não ajudou, limitando-se a dizer que as estações eram quatro (uau!) começando pela primavera. O fato é que eu havia gostado, a ponto de querer ouvir outras vezes. O CD então saiu da gavetinha escondida na estante da sala para a minha pequena mas orgulhosa coleção, para diante dos olhos (e ouvidos) de quem o quisesse.
Não faltou tempo para as outras duas faixas, também. A segunda era um concerto para flauta e orquestra, pelo qual não me apaixonei de início, mas acabou acontecendo; e a última, um concerto para sopros, violino e cordas, bem interessante, mas que não me atrai tanto nos dias atuais.
Tenho hoje mais um CD da Nona de Beethoven, dois de Tchaikovsky (três; um é duplo), um de coros russos e uma Carmina Burana. O grosso de meu acervo erudito, e de meu acervo em geral, está em meu computador (os torrents, tantas outras emoções). Dificilmente comprarei muito mais CDs. Mas a história desse CD do Vivaldi eu gosto de lembrar.
E já que contei essa história, permitam-me comentar algo que ocorreu agora, ouvindo uma vez mais essas músicas, antes e ao escrever. As Quatro Estações e os dois concertinhos aqui são peças, por assim dizer, didáticas, acessíveis, como que de encomenda para quem quer aprender a gostar de música erudita. Pois, convenhamos, há peças muito difíceis de ouvir, e mesmo por demais enfadonhas, para que está tendo um primeiro contato com esse repertório. Não é o caso aqui: o ouvinte iniciante põe um pequeno movimento  ali - nem é preciso ser uma Estação inteira -, aprecia e volta depois; em pouco tempo, terá ouvido o concerto grosso inteiro, abrindo ouvidos e mente para os concertos seguintes, depois para outras composições, outros autores...
Pensando bem, didático assim é o piano de Chopin, e tenho comigo que os criadores por trás dos episódios de Tom e Jerry e do Pica-Pau também o sabiam, não por acaso colocando várias peças do compositor como trilha sonora desses desenhos. Aí, um belo dia você se dá conta que gosta dos "clássicos" e nem sabia.
Para terminar, segue um vídeo da segunda faixa desse meu CD, o Concerto para Flauta e Orquestra nº 2 em Sol Menor OP. 10 (La Notte)...apreciem...

 
 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

são paulo no rumo certo. para a vala

E a semana se inicia com o anúncio oficial da (pré-)candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo. O tucano deve agora disputar as prévias que definirão o nome que seu partido lançará para o pleito; estas, no entanto, tendem a se tornar uma mera formalidade, uma vez que os demais postulantes tendem a declinar de suas pré-candidaturas - todas anteriores ao anúncio de Serra - em favor do ex-prefeito, que aparece em primeiro lugar nas pesquisas em que é citado como o candidato do PSDB, ainda que apresente o maior índice de rejeição entre todos os possíveis concorrentes.
Está na frente pois é o nome mais conhecido no páreo. A rejeição se explica pelo mesmo motivo, e também (assim esperamos) porque estamos falando de José Serra, aquele político que abandonou a mesma prefeitura paulistana seis anos atrás para disputar uma nova eleição após afirmar categoricamente - e até registrar em cartório - que não o faria, e que até ontem tinha como objetivo candidatar-se novamente à presidência da República.
Pois bem, Serra é candidato e, apesar de todas as circunstâncias que o desabonem - somem-se a estas o apoio incondicional do impopular prefeito atual e seu ex-vice, Gilberto Kassab -, tem grandes chances de se eleger. Para tanto, deve se basear no tradicional conservadorismo do eleitor paulistano, bem como polarizar a disputa com o PT, ingrediente este que tem funcionado às mil maravilhas na capital e no Estado nos últimos anos - com a ajuda de setores da mídia, diriam alguns, não sem certa razão. E lá vai São Paulo eleger aquele que vai derrotar os petistas, a qualquer custo - ainda que "qualquer custo" signifique "não há programa de governo".
Não que as demais alternativas sejam muito melhores, na realidade, ao menos entre as candidaturas mais expressivas. Que temos na disputa até o momento? O mui católico Gabriel Chalita mudou de partido duas vezes nos últimos três anos - do PSDB para o PSB e depois para o PMDB - e pode ter plagiado a si mesmo para conseguir uma nova titulação acadêmica, competindo assim em escrúpulos com Kassab, mais ocupado em fundar um partido fisiologista para chamar de seu que em administrar de fato a cidade. Soninha Francine saiu do PT e se lançou candidata a prefeita em 2008 pregando um "novo jeito de fazer política" e dois anos depois estava abraçada a José Serra na campanha eleitoral de mais triste memória da história recente, em que o fanatismo (inclusive religioso) quase decidiu quem seria o novo presidente. Netinho de Paula é outro que aparentemente só tem compromisso político consigo mesmo. Celso Russomano, do PP de Maluf, é opção que se restringe aos mais reacionários.
Por último, Fernando Haddad e o PT. Nada contra o ex-ministro da Educação, apesar dos problemas do Enem. Mas o partido foi protagonista de uma extraordinária lambança nos últimos dias. Crítico ferrenho da administração de Gilberto Kassab, até por um mínimo de coerência - que lhe tem faltado em outros Estados e a nível nacional -, o PT pleiteou o apoio do prefeito à campanha de Haddad, convidando-o inclusive para a comemoração de seus 32 anos de existência, apenas para depois ver a decepção de sua militância remanescente e amargar a "noiva" declarando fidelidade canina a José Serra. O partido comprometeu o que lhe resta de dignidade em nome de uma ação político-partidária pragmática que sequer se concretizou. (Viram como é possível fazer crítica pertinente, sem copia e cola da Veja?)
A verdade é que, após atropelar os colegas de partido, José Serra larga na frente na disputa deste ano, ainda que poucos creiam na possibilidade de o eterno candidato cumprir seu mandato até o final e, por consequência, tenha algum compromisso com a busca de soluções para os problemas desta cidade. Dos demais candidatos, embolados no pelotão posterior, também não se pode esperar muito; ou o próprio postulante ou seu partido não inspiram confiança. Vai assim se desenhando a certeza de mais quatro anos de descasos e abandono da capital paulista, mais notadamente dos locais onde a população mais pobre está. Até onde pode descer, São Paulo?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

caminho do sol - minha primeira cicloviagem


É com grande orgulho e satisfação que retorno de minha primeira viagem de bicicleta. Ontem concluí, após cinco dias, o Caminho do Sol, juntamente com mais dois amigos. A rota possui cerca de 240 quilômetros e vai de Santana do Parnaíba a Águas de São Pedro. Mas nosso pedal começou antes: encontrei em Carapicuíba o Shauan Bencks e o Paulo Straiotto e de lá saímos no final da tarde de sexta rumo ao centro histórico de Santana, primeiro local onde nos hospedamos. Isso acrescenta mais uns 20 quilômetros ao nosso percurso. Quanto ao Caminho propriamente dito, nós o iniciamos no sábado e o concluímos ontem.
Foi uma experiência incrível. Estivemos em locais que jamais cogitaria adentrar, menos ainda montado numa bicicleta. Em nossa rota, bares pitorescos, pequenas pousadas, casarões coloniais, imensas plantações de cana e outros produtos agrícolas, pastagens, trechos de mata...chegamos a esses locais por estradas nas mais diferentes condições, desde o mais liso asfalto até um piso de areia quase intransponível em dias de chuva. E as paisagens eram maravilhosas.
Travamos contato com pessoas interessantíssimas, sem as quais a viagem não teria sido a mesma: outros ciclistas fazendo o mesmo percurso, as pessoas que tão bem nos receberam em pousadas e demais pontos onde estivemos de passagem, curiosos que vinham com admiração saber daquelas pessoas montadas em bicicletas tão carregadas sobre nossos locais de origem e destino, alguns peregrinos - pois, sim, o Caminho do Sol também é trilhado por gente a pé.
Cinco dias, muitas subidas fortes em nosso caminho, alguns contratempos envolvendo avarias nas bicicletas, fortes chuvas enlameando estradinhas - e bikes...e ciclistas. A chegada a Águas de São Pedro foi muito celebrada, e não poderia ter sido diferente. Um desafio e tanto, com toques de aventura, vencido com louvor. Ficam as lembranças e a vontade de pedalar ainda mais por estas estradas. Opções de roteiros para novas cicloviagens não faltam.
Por enquanto, é isto. Um relato mais detalhado dessa empreitada em breve estará disponível no blog Shauan de Bicicleta, com todas as fotos e vídeos que fizemos - é muito material mesmo! - e talvez eu mesmo me dedique a escrever sobre esta viagem fantástica. Fiquem ligados.
E para saber mais sobre o Caminho do Sol, visitem http://caminhodosol.org.






domingo, 15 de janeiro de 2012

noite e sangue

As paredes cobertas de sangue e restos de cadáveres. Todos mortos por ela. Vários deles, durante várias noites, tantos conseguisse acertar. Acaba de tirar a vida de mais um. Sente-se uma assassina, talvez seja mesmo, pensa. Mas não havia escolha. Era uma decisão lógica. Vivos, ão a deixariam dormir. Infernizariam sua noite. Ou eles ou eu. E não serei eu.
E eles são tantos. inúmeros. sua população está fora de controle. Todos sabemos disso. Convence-se de que está fazendo um bem. não só para si mesma, mas para todos. É para o bem comum. Certeza de que me entendem. E o que faz ainda é pouco, eles se proliferam de modo absurdo. no fundo, isto é só paliativo. Em pouquíssimo tempo haverá mais deles, aos montes. Espera que todos estejam fazendo sua parte.
E, na realidade, por que negar? Sente um prazer imenso ao matá-los. Urra de modo ensandecido ao atingi-los. Mira satisfeita a mancha de sangue nas mãos antes de lavá-las. É a confirmação de seu poder, de sua superioridade. Não foi o que lhe ensinaram? Estamos acima deles. Trilhamos um caminho glorioso, ainda que tenhamos tropeçado em alguns momentos. Deslizes que permitiram, por exemplo, que eles se espalhassem desse modo descontrolado. Mas ainda haveremos de vencer. É nosso destino.
Despede-se da família e vai se deitar. Está exausta e satisfeita. Dormirá em paz.
Um ruído familiar e um levíssimo toque. Acorda de súbito na madrugada. Surpresa e indignada. Não consegue se perdoar.
Não havia vasculhado por todos os cantos? Sua pontaria não tinha sido certeira? Tantas noites de prática...
Tanto sangue...deles...não o meu, não o meu...
Levanta-se com uma almofada em punhos. Acende a luz. Precisa limpar essas paredes pela manhã.
Como deixei esse último pernilongo escapar?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

sobre o belas artes e patrimônio


O caso do cine Belas Artes ainda não terminou. Esta semana, o Conpresp, órgão municipal de proteção do patrimônio na cidade de São Paulo, deve votar o pedido de tombamento do complexo, o qual, uma vez aprovado, impediria o imóvel que por anos abrigou o cinema - hoje fechado - ter outro destino que não o de abrigar salas de projeção. A pedido do próprio Conpresp, a Procuradoria-Geral do Município foi responsável pela emissão de parecer acerca da preservação do espaço, e se manifestou de forma contrária a essa ação. A permanência do cinema em seu tradicional endereço, entre a Paulista e a Consolação, parece, portanto, ameaçada.
Fundamenta o pedido de preservação do Belas Artes não um possível valor arquitetônico ou urbanístico de sua construção, como é de praxe, mas o patrimônio imaterial que o cinema representa: haveria de se tombá-lo como espaço de fruição de uma produção cinematográfica diferenciada. Trata-se também de um dos poucos cinemas "de rua" remanescentes na capital, engolidos que foram pela explosão de salas multiplex de shopping centers.
A intenção, portanto, é das mais nobres e ainda envolve uma questão inovadora no entendimento a respeito do que a cidade de São Paulo deve considerar como bem que não pode ser perdido.
Uma observação mais atenta, entretanto, que essa inovação não é integral. Pensemos na localização do cinema. É uma área nobre, ainda das mais valorizadas de São Paulo. Sob a justificativa de preservar a paisagem urbana o mais próximo possível do original - impedindo, por exemplo, a construção de edifícios altos - foram tombados bairros inteiros, como o Jardim América, Interlagos e, mais recentemente, o City Lapa. Todos elitizados desde o momento de sua concepção. Ora, parece bastante questionável a atitude de preservar somente espaços nobres, num momento em que o mercado promove a mais ferrenha especulação imobiliária já testemunhada por esta cidade. Vemos quarteirões inteiros de certos bairros indo ao chão, suas casas e sobrados simples cedendo espaço a prédios de gosto no mínimo duvidoso onde os antigos moradores e pessoas de poder aquisitivo similar não terão condição de morar. Isso para não falar dos habitantes de favelas em áreas mais centrais, esses são sistematicamente expulsos pelo própio poder público, este por sua vez atendendo aos interesses de empresários do setor imobiliário.
Leve-se em conta também que a existência de cinemas como o Belas Artes, com uma programação em geral avessa à lógica do pipocão hollywoodiano, também atende a uma necessidade de mercado - menos massificado que o dos blockbusters, por exemplo, mas ainda assim mercado. Embora houvesse as sessões especiais e os filmes que permaneciam em cartaz por muito mais tempo que o habitual, o foco eram as novidades, os filmes cult recém acolhidos pela crítica. Nesse sentido, talvez sejam ainda mais interessantes como formadores de apreciação cinematográfica além da hegemônica espaços especializados em mostras e retrospectivas, em boa parte públicos, como as salas de centros culturais, a Cinemateca e a Galeria Olido - este último um antigo cinema de rua no centro que hoje pertence à Prefeitura - que exibem clássicos e filmes fora do circuito comercial, inclusive, a preços mais acessíveis.
Que não se entenda mal, entretanto: o Belas Artes deve continuar, e continuar onde está, até pela tradição. Perdê-lo para ter em seu lugar, por exemplo, um centro comercial de qualquer natureza - pois agora ele é vizinho de uma estação de metrô - seria uma perda irreparável, mais uma. Mas sua preservação não deveria acontecer via decreto. O movimento pela preservação do cinema deveria sensibilizar o dono do prédio sobre a importância de manter o cinema ali, ainda que isto lhe traga lucros menores.
Mas muito mais merece ser preservado. A discussão deve ir além: a ação das incorporadoras e construtoras precisa ser questionada com urgência. Patrimônio não é só o espaço "chique" frequentado por gente de bem. É tudo que o cidadão reconhece como objeto de fruição sua e da coletividade: o cinema tradicional que tem público cativo, a tranquilidade do bairro de classe média baixa com suas construções baixas, o direito da população mais humilde - ou, neste caso específico, da fração dela que consegue habitação em áreas centrais - de não ser obrigada a viver num local que a obrigue a se deslocar para chegar ao trabalho por seis, sete horas horas diárias. Tudo isto é a cidade, é aquilo com que podemos nos relacionar de forma mais ou menos democrática e igual.
Infelizmente, no dia de hoje isso soa idealista demais, a única ordem vigente é a dos ganhos financeiros rápidos e exorbitantes. E para garantir que ainda sobre algo que signifique algo às pessoas nesta São Paulo às vezes difícil de considerar cidade, devido à falta de identificação de seus moradores com a realidade que os rodeia, só na base da canetada.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

o anjo da história

Terminei ainda agora de ler O Que É O Anarquismo, da coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense. O autor é Caio Túlio Costa.
Mas não quero aqui tratar sobre a qualidade do livro, nem mesmo refletir sobre minhas posições políticas - saber que leio sobre anarquistas já deve ser assustador o bastante (risos). Trago aqui uma imagem a que fui apresentado ao final desta minha leitura, composta por um quadro e uma célebre interpretação deste, que alguns devem conhecer.
Abaixo, o Angelus Novus, de Paul Klee.



Sobre ele, Walter Benjamin, pensador antiautoritário, escreveu o seguinte (transcrito daqui):

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”


Caio Túlio afirma que "ninguém, mais do que os libertários (anarquistas), olharam para a história como o Angelus Novus", "pasmados pela barbárie que o homem produziu".

E o que tenho a dizer sobre isso?...

Na verdade, apenas digo que tal proposição é um ponto de partida para inúmeras reflexões. Primeiro, trata-se de buscar uma perspectiva distinta da História, mais ampla, não focada em datas e nem sob a necessidade de crer numa ideia de progresso ao longo dos mais distintos fatos e períodos históricos. E afinal, o que de fato é progresso? Existem eras denominadas de prosperidade em nossa História que representaram de fato melhoras nas condições de vida da população como um todo? Quem define o que se chama de progresso? As massas populares têm vez nos processos de mudanças sociais e econômicas experimentados ao longo do processo histórico? Tiveram alguma vez? Terão algum dia? Ou a história se repete sempre e não o percebemos?
Não necessitamos todos nos tornar libertários se não o quisermos, mas creio termos muito a aprender uma vez adquirida essa visão em perspectiva de nosso passado.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

capitães do mato, antes e agora

Foi ainda hoje, no final do meu almoço. Uma mendiga apareceu na praça de alimentação da galeria onde fica o restaurante onde fui comer e, ao passar por alguma mesa, tentava tocar no prato de alguém. Eu a vi fazer isso de perto, ela quase pegou um pastel de alguém que estava sentado numa mesa ao lado da minha. A mim pareceu óbvio que ela não estava, como se diz, em seu juízo perfeito: talvez tivesse alguma deficiência intelectual, ou a vida na rua a afetou, não tenho como saber. Enfim, não podia responder pelo que fazia.
Ocorre que, pouco tempo depois, eu a vi ser tirada a força do local. E quando digo local, é a galeria mesmo. Puxada pelo braço, empurrada - isso até que os dois sumissem da minha vista, depois, não sei. O autor do serviço sujo foi um desses seguranças engravatados. Como, aliás, não poderia ser diferente.
O caso me lembrou quase imediatamente estas cenas do recomendadíssimo filme Quanto Vale Ou É por Quilo.





Capitão-do-mato era uma função que ninguém queria, era malvista tanto pela elite, que a julgava necessária para a solução efetiva de ocorrências "indesejáveis" - como a fuga de escravos - , tanto pela população humilde, vítima de seus abusos e arbitrariedades e onde se recrutavam esses "profissionais". O capitão era o mais duro repressor direto da própria classe de origem.
E os seguranças de hoje? É o emprego que conseguem com a baixa escolaridade que, em geral, possuem. A elite precisa se sentir segura, ou, enquanto proprietária de um meio de produção, passar uma imagem de segurança para sua clientela. Aí entram em cena os guardas vestidos a rigor. O serviço pode ser visto como necessário, mas isso está longe de significar valorização da carreira. O segurança é o trabalhador explorado típico: baixos salários, treinamento insuficiente, vínculos empregatícios precários - afinal, "é tudo terceirizado". Mas foi o emprego que apareceu, e é preciso pôr comida na mesa...o negócio é fazer cara feia e sair marcando suspeitos com olhares e atitudes - sem parar para pensar que, sem a gravata e as credenciais da empresa, ele próprio seria tomado como suspeito em potencial por seus pares.
Estão incutidos nesse empregado os piores preconceitos que seus contratadores podem ter. Ele os reproduz com crueldade.
Para o capitão-do-mato que vi em ação hoje, a moradora de rua transtornada era menos que gente, merecendo, assim, ser colocada para fora, como o lixo que o restaurante produz. Se ele, segurança, se vê tão distinto daquele com quem mais se parece mais, a ponto de criminalizá-lo, o que não vai pensar sobre uma pessoa totalmente marginalizada, ele simplesmente não está preparado para lidar com alguém nessas condições. E talvez nem queira sabê-lo.
"Ah, mas você está exagerando nessa comparação, os seguranças podem ser uns brutos, mas pelo menos não matam." Não? Favor não se esquecer de uma certa ocorrência numa loja das Casas Bahia na periferia de São Paulo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

jovens têm de sair de abrigos aos 18 anos

Essa reportagem me deixou chocado. Primeiro, tenha-se em mente que nem todo menor abandonado tem a chance de ser adotado, ou mesmo de ir para um abrigo. Agora, dou-me conta que nem mesmo a sorte de conseguir uma vaga num programa social público é garantia de que esses jovens consigam se estabelecer por si mesmos e escapem de ir parar...na rua, que essa era a intenção dede o início. Ao chegar a época de deixar os abrigos, eles enfrentam a insegurança de não saberem o que será de suas vidas após abandonarem a segurança do mundo que conhecem - situação que todo jovem em algum momento enfrenta, mas neste caso agravada pela situação de vulnerabilidade em que os abrigados se encontram.


Ler também: uma república na Vila Leopoldina recebe jovens saídos de abrigos sem cobrar aluguel e o depoimento de uma jovem moradora prestes a perder a vaga oferecida pela Prefeitura.

ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos (Thiago Arruda)

Reproduzo, a seguir, um ótimo texto da autoria de Thiago Arruda, que aborda o hediondo caso do pai que foi atacado e teve uma orelha quase totalmente arrancada por agressores que acharam que ele e o filho eram homossexuais porque estavam abraçados. O flagrante desrespeito aos direitos de quem é considerado menos que humano encontra paralelo num outro ato covarde ocorrido catorze anos atrás, quando criminosos abjetos atearam fogo a um índio que dormia num ponto de ônibus porque (?) foi confundido com um mendigo.
Chama atenção a baixa repercussão do caso desta semana - um crime de motivações claramente homofóbicas - no noticiário da Rede Globo, que decidiu recentemente abortar da novela Insensato Coração uma série de cenas - algumas já gravadas - envolvendo o casal gay Eduardo e Hugo, sob o pretexto de não "exaltar" a homossexualidade nas novelas. Ora, a verdade é que a emissora não quis correr risco de perder audiência e anunciantes com o tema, num caso ainda mais flagrante de colocar negócios acima de gestos humanitários do que o da propaganda da Vivo, sobre o qual comentamos recentemente. O desserviço é tamanho que compromete até mesmo o jornalismo, como se a denúncia veemente de homofobia e demostrações de afeto fossem "levantar bandeira". Bem, para a alta cúpula Globo, aparentemente é; alguém graúdo deve ter decidido que na novela já se tinha ido longe demais e a ordem foi puxar o freio do antipreconceito em toda a programação.
Enfim, que a luta por direitos humanos para TODOS os seres humanos prossiga sem o apoio de grandes corporações, através, por exemplo, da internet, fonte do texto a seguir e meio onde todos, não somente uma minoria interessada em fazer mais dinheiro, podem expressar sua voz.



Ah, desculpe, achávamos que fossem gays ou mendigos.


Thiago Arruda

Ah, desculpe, foi um engano: achávamos que fosse um mendigo. Foi isso que disseram, no ano de 1997, em Brasília, os jovens de classe média que assassinaram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. O caso ganhou ampla repercussão. O grupo simplesmente resolveu atear fogo ao corpo do homem que dormia sob o abrigo de uma parada de ônibus da cidade. Sadismo e ódio de classe lhes ofereceram motivos suficientes para isso.

Na última sexta-feira, 15 de julho de 2011, um novo engano. Pai e filho são agredidos brutalmente em São João da Boa Vista, cidade localizada no interior de São Paulo. Os agressores julgaram que eles eram gays; julgaram, e condenaram, mesmo diante da resposta negativa das vítimas. O pai teve parte da orelha cortada. Os autores não foram presos, são desconhecidos.

O que há de comum entre o gay e o mendigo? Algo que autoriza a violência. Algo que, aos olhos de alguns, pode justificá-la. O que o pequeno engano cometido pelos jovens brasilienses e pelo grupo de paulistas revela é que alguns – alguns muitos – são a ralé, uma sub-raça, um tipo inferior e que, portanto, devem apanhar, ou mesmo morrer. Para que aprendam, ou simplesmente para que seus carrascos possam dar vazão a toda a raiva que a mera existência desses vermes lhe provoca, ao poluírem o seu mundo. A essas criaturas, não resta humanidade, muito menos direitos.

É profundamente emblemático que um dos agressores paulistas tenha sido tão claro ao afirmar: “agora que liberou, vocês têm que dar beijinho”. Quantas vezes não escutamos um “não sou preconceituoso, apenas tenho o direito de não ver dois homens [ou duas mulheres] se agarrando” ou algo parecido? No fundo, trata-se da invenção absurda do direito de que o outro não faça, não seja, não exista. É o direito que o homofóbico proclama a si mesmo de que o outro se esconda, envergonhe-se de si e da forma como ama.

É daí que vem o seu direito de atacar. Cortar a orelha do “culpado”, aliás, é um castigo antigo. Em algumas civilizações, o ato significava que o acusado não ouvira bem, não compreendera bem a “voz da lei”. De fato, os que não se submetem a heteronormatividade esquivam-se de dar ouvidos ao imperativo hegemônico da sexualidade. Frequentemente, são castigados por isso; pelos homofóbicos que proclamam sua lei, proclamam o direito de que o outro não exista e tentam fazê-la cumprir a ferro e fogo. É assim que a relação se inverte: as vítimas são punidas; os vitimizadores punem e permanecem impunes, espalhando ódio por praças, igrejas...

O machismo nunca se deu bem, é verdade, com intensas demonstrações de carinho entre pai e filho. Logo, não é tão estranho que essa relação seja confundida com a relação entre namorados do mesmo sexo. No entanto, o mais grave é que há aqueles cuja revolta, declaradamente ou não, dirige-se contra a incapacidade dos agressores em diferenciar gays de pais e filhos – ou mendigos de não-mendigos (não que os índios sejam bem tratados, não o são). Algo como “que absurdo, esses loucos atacando cidadãos de bem”. Preserva-se, assim, um silêncio; no espaço não-pronunciado, persiste, firme, forte e bruta, a autorização da violência contra os seres sub-humanos que entopem os bancos das praças ou fazem sexo porcamente: se fossem mesmo, se não se tratasse de um engano, se fossem o que achavam que eram, não faria diferença. O problema permanece. Não se deveria a isso toda a repercussão na mídia que teve o caso da última sexta-feira? Quantos gays, lésbicas, travestis e transexuais são agredidos todos os dias no Brasil? Os relatos são constantes; a repercussão, bem menos intensa. O fato de a TV Globo ter, recentemente, censurado a participação de um casal gay na trama de uma das suas novelas é também revelador nesse sentido.

Cuidado. Você pode ser confundido com um gay, uma lésbica, ou um mendigo por aí. Portanto, comporte-se.

domingo, 3 de julho de 2011

sobre meninos, meninas e gibis

Não acompanho futebol desde 2007. Manter-se totalmente alheio ao assunto, porém, seria um feito irrealizável. Contou-me um passarinho - o Twitter, no caso - que a seleção feminina vem dando espetáculo após espetáculo na Copa do Mundo, com destaque para a jogadora Marta. Já o time masculno não saiu de um mísero empate em zero com a Venezuela (Venezuela!) num jogo, no mínimo, lamentável. E eu soube também que, perto dos milhões e milhões que movem a equipe masculina para onde ela vá e não importa o quão feio faça, Marta e suas intrépidas colegas contam com um orçamento proporcionalmente modesto.
Se futebol é tema assim tão inescapável, vejo que cada um pode dar pitaco, mesmo quem não faça questão de se inteirar muito a respeito. Como eu, por exemplo. Mas, para não fazer tão feio, meterei meu bedelho partindo de uma analogia com algo de que entendo mais - ainda que se trate também de modelo de entretenimento que eu não acompanhe com a regularidade de outrora.
Vejo o pessoal reclamando da seleção masculina e penso em gibis de super-heróis. Sim. Ocorre que, todo mês, religiosamente, deve haver ao menos uma revista nova dos X-Men, do Superman, do Homem-Aranha, do Batman, que seja. Tem de estar lá. Pelos fãs? Pela arte? Pela marca. Os prodigiosos justiceiros mascarados são franquias que precisam se manter vistas, faladas, consumidas. Por isso jamais acabarão. Mesmo que vejamos o Capitão América ou o Homem-Morcego morrerem, um novo personagem assumirá a respectiva identidade secreta e, tempos depois, esteja certo de que os originais estarão de volta com uma explicação mirabolante a reboque. Aliás, isso de fato ocorreu recentemente, com os mesmos heróis citados. É um osso de que os cães da Marvel e da DC não largam mão. Que saia (no mínimo) um gibi novo de nossos personagens mais famosos, ainda que pareça impossível manter a qualidade das histórias publicadas. Aliás, parece, não: acredite em mim, li quadrinho por muito tempo e é impossível sair história boa sempre. O que leva a apelações como mortes, retornos, clones, uniforme novo, corte de cabelo novo, poder novo, versão maligna...já vi de tudo um pouco. Coisas que podem levar meses, até anos, para serem resolvidas. Quando são resolvidas. Mas, ei, todo mês tem história nova do seu herói preferido, não importa quão boçal ou repetitiva ela soe.
Mas, enfim, de volta ao futebol. A seleção brasileira é uma marca. Uma senhora marca. Que o digam a Rede Globo, a Brahma, a Nike, o Ricardo Teixeira. Como os gibis, ela prima por resultados, e não necessariamente por qualidade, mas de uma maneira diferente. A seleção não deixa a desejar porque tem de jogar todo mês. É a forma como se montam as equipes. Via de regra, simplesmente são escolhidos os jogadores que mais estejam em maior destaque pelo futebol jogado em seus times. Entao espera-se que tais profissionais sejam capazes de se relacionar bem numa equipe, mesmo que, para a maioria dos torneios, não haja tempo hábil para tal. Porque eles estão ocupados nas equipes com que mantêm vínculo empregatício e, portanto, presos a uma série de compromissos ao longo de todo o ano. Por mais que todos gostem de acompanhar a "pátria de chuteiras", o negócio seleção brasileira não pode interferir de forma tão incisiva no negócio torneios de futebol no Brasil - e mesmo em outros países onde outros jogadores selecionáveis atuem. Ora, mas esses jogadores são bons, os melhores, e precisamos de uma seleção brasileira, os patrocinadores e as emissoras de TV - ou seria a emissora? - estão contando com isso. Ah, tem o torcedor também. Mas é o de menos, todos os grandes selecionados devem seguir essa mesma lógica burocrática e no fim o mais que temos são jogos e torneios idem; mal-aventurados os saudosos daquele futebol arte.
Talvez o futebol devesse perder essa característica tão "na cara" de empreendimento. Evidentemente, os cães das grandes entidades futebolísticas e associados também não largarão o osso. Mas há que achar um equilíbrio. As meninas estão aí mostrando que, no mundo do espetáculo esportivo, menos pode ser bem mais. Mais consistência, mais regularidade, mais futebol de verdade. E com os gibis se dá o mesmo: todo leitor se pega em algum momento em recordações sobre os "tempos mais simples" de outrora, com histórias menos ambiciosas, complexas em termos de bagagem cronológica e, sobretudo, melhores. Menos negócio, mais diversão, é o que o entretenimento deveria ser.
Mas não, mesmo na remota hipótese de o futebol seguisse essa receita, eu não voltaria a assistir aos jogos. É entretenimento, como qualquer outra coisa na TV, ou como quadrinhos. Cada um escolhe o que lhe agrada.

sábado, 25 de junho de 2011

os jovens e a participação política

Saiu esta reportagem do R7 afirmando que quase 60% dos jovens não se identificam com partidos.
Umas conclusões óbvias podem se tirar daí. Primeiro, e isto não é novidade para quase ninguém, que os partidos políticos, mais notadamente os grandes, estão muito distantes dos anseios da população em geral, comprometidos que estão com interesses outros, daqueles que as siglas de maior representatividade parecem de fato representar. Faça-se a mesma pesquisa com banqueiros, grandes empresários, ruralistas; a elite, enfim: esse grupo, se sincero for, afirmará que sente grande identificação com a maioria dos partidos mais próximos do poder.
Falei dos grandes, mas essa sensação de frustração com o sistema partidário atinge também os partidos pequenos, que possuem discurso diferenciado em relação à práxis dominante mas não conseguem crescer porque estamos desiludidos com partidos em geral.
A outra ideia é uma resposta à possível pergunta: então o jovem não se interessa por política? Por essa política partidária, definitivamente, não, mas isso é lá com os partidos decidir se querem sua participação ou não. O fato é que militar num partido não é a única forma de se manifestar politicamente, de agir em prol de uma causa coletiva. Estão aí essas grandes manifestações ocorrendo em todo o país de prova. Protestos conta o aumento da passagens de ônibus, o Churrascão da Gente Diferenciada em São Paulo, e marchas como a da Liberdade e a das Vadias, todos foram organizados de forma espontânea e apartidária pela internet - este, sim, o grande veículo de mobilização. Assim convocados para marcar presença e deixar claras suas posições, os jovens saem às ruas e erguem as bandeiras com as quais se identificam, mais notadamente aquelas com as quais os grandes partidos não podem (não querem?) se comprometer. A bancada evangélica, por exemplo, possui membros no governo e na oposição majoritária, o que torna o ativismo pelos direitos das mulheres e dos gays dentro de alguma dessa lógica de poder. O mesmo se aplica em relação à bancada ruralista e a luta contra o Código Florestal.
Enfim, os jovens estão aí, buscando participar de alguma forma. Se não há espaço para levantar a voz dentro da política tradicional, que se faça política ganhando as ruas. É fácil encontrar bandeiras de pequenos partidos de esquerda nessas manifestações. Estes devem ter percebido o movimento como uma oportunidade de mudar a própria política partidária, aproximando-a daquilo que a sociedade realmente deseja - e transformando isso em votos, evidentemente. E os partidos grandes? Silenciar-se a essas novas demandas não é possível. A tática de cooptação também não funciona como antes. Que atitude vão tomar?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

professores do ifsp fazem paralisação

Poucos conhecem o IFSP - Instituto Federal de Ciência, Tecnologia e Educação de São Paulo. Trata-se de uma instituição de ensino federal, como o nome entrega, que oferece cursos de nível técnico, técnico integrado ao ensino médio e superior - em São Paulo, há cursos superiores nas áreas de tecnologia, engenharias e licenciaturas. O instituto originou-se da expansão da antiga Escola Técnica Federal de São Paulo, que, ao passar a oferecer também formação superior, foi chamado de Cefet antes de adotar a denominação atual. Há campi do IFSP em outras cidades do estado de São Paulo, assim como outros IFs em outros estados.
A expansão da antiga escola técnica exigiu a contratação de novos docentes, o que foi feito de modo insuficiente e inadequado, dada a política adotada de contratar majoritariamente professores substitutos, cujo vínculo empregatício com o IF tem duração de apenas dois anos. Agora, a reitoria da instituição pretende aumentar a carga horária dos professores, o que compromete a dedicação para outras atividades intrínsecas à carreira docente - como a pesquisa, a extensão - e tem nítidos reflexos na qualidade dos curso oferecidos.
Desse modo, os estudantes têm se posicionado a favor da paralisação marcada para hoje e amanhã, a qual serve como advertência de que os docentes não aceitam as propostas do reitor e vem também chamar a atenção para diversos problemas de infraestrutura enfrentados pelos frequentadores do campus. A possibilidade de uma greve no segundo semestre não é descartada.
A seguir, uma carta aberta do Centro Acadêmico do curso de Licenciatura em Geografia dá mais detalhes sobre a situação no IFSP e o porquê do apoio à paralisação dos docentes.


Carta Aberta do C.A. Geografia

em Apoio à Paralisação dos Professores do IFSP

Nos próximos dias 15 e 16 de junho os professores do IFSP irão realizar uma paralisação em defesa do trabalho docente, em resposta ao processo de sucateamento da educação dentro do Instituto. Tal precarização ocorre devido à expansão das vagas que não é acompanhada dos investimentos necessários para manter a qualidade de ensino e que foi agravada pelo corte de R$ 3 bilhões, na verba para a educação, feito pelo governo Dilma para 2011. Dentre os elementos mais sentidos pelos professores estão a ausência de um plano de carreira, defasagem salarial e o recente aumento da carga horária imposta à categoria. Este último item impede que nossos professores disponham de tempo adequado para elaborar suas aulas, atender o discente e para pesquisar e atualizar seus conhecimentos - elementos considerados essenciais para manter a qualidade de ensino.

Por outro lado, nós alunos também sentimos de perto a precarização pela qual passa o Instituto. Sofremos com uma infraestrutura insuficiente, que vai desde o acervo da biblioteca, goteiras nas salas de aula, poucas verbas para trabalho de campo e para assistência estudantil, a quase inexistência de programas de pesquisa e extensão e principalmente com a falta de professores. Neste semestre, por exemplo, algumas disciplinas só foram iniciadas no mês de maio, pois infelizmente o IF aplica uma política de contratação de “professores substitutos” que dura no máximo dois anos. Essa política traz enorme insegurança para nosso curso, pois além da grande rotatividade de professores, todo ano temos que enfrentar a enorme burocracia para tais contratações e o conseqüente atraso para início das disciplinas.

Todos esses problemas que rebaixam nossa qualidade de ensino levam ao Centro Acadêmico da Geografia a manifestar publicamente seu apoio à paralisação dos professores nos próximos dias. Fazemos um chamado aos alunos dos outros cursos para que apóiem a paralisação em defesa do trabalho docente e da qualidade de ensino dentro do IF, nos mobilizando para exigir da reitoria que acate as reivindicações dos professores e também as nossas

terça-feira, 14 de junho de 2011

mais um ciclista morto. mas o pedal continuará

A segunda-feira, que já não é fácil para quase ninguém, ainda calhou de vir com uma nota das mais tristes: o atropelamento seguido de morte de mais um ciclista nas ruas de São Paulo. (A notícia, aliás, me chegou com uma imagem chocante de um rastro de sangue na rua, que não compartilharei aqui.) E lá foram os ciclistas no começo da noite se manifestar, pedir respeito à vida, acender velas e instalar mais (!) uma ghost bike (como esta, em Santo Amaro).
E infelizmente é isso: quem busca alternativas à falta de mobilidade em nossas grandes cidades e evitar o stress a ela inerente necessita tomar cuidados redobrados, vulnerável que está frente à irresponsabilidade de certos condutores de veículos motorizados, justo aqueles que mais deveriam zelar pela segurança alheia. Digo "certos", mas talvez o correto seja "muitos", pois o horror nas ruas é generalizado; temos é sorte de não morrer ainda mais gente.
"Mas todo mundo sabe que a rua é perigosa. Por que esse pessoal inventa de sair pedalando no meio dos carros?" Meu caro, bicicleta é veículo e tem todo direito de estar na rua. É lei. Isso dito, vamos fazer um exercício de empatia. Não é todo mundo que sai às ruas de bike. Mas a experiência de ser pedestre todos vivem. Certo. E todos os pedestres correm riscos. Até mesmo ao atravessarem na faixa com o farol verde para eles. Até mesmo quando andam nas calçadas. Não é assim? E se alguém é atropelado nessas condições, de quem é a culpa? Quem torna ruas e calçadas perigosas? Esse irresponsável que resolveu sair às ruas a pé em vez de pegar o carro, como um cidadão "de bem" deve fazer? O ponto é: assim como os pedestres são vulneráveis, ciclistas também são. E todos têm o direito de estar onde estão, sem morrer.
Tem mais. Como ciclista esporádico que sou, vejo em quem pedala nas ruas um certo idealismo, algo que vai além do que se locomover de um modo menos usual, além de fazer algo que lhe oferece grande prazer. É uma maneira diferente de se relacionar com o entorno: observar mais a paisagem urbana, senti-la de fato. Ser parte dela, em vez de afastar-se, protegidos (porque isolados) dentro de um carro. Mesmo de forma inconscientemente, o ato de pedalar nos faz crer que podemos ser diferentes, que não precisamos andar apressados, manter-nos em estado de alerta, nem ser agressivos. É a tal da cultura de paz contra a insensibilidade, contra um não-se-importar que se manifesta, neste caso, em culpar a vítima pelo "acidente" que a vitimou.
A indiferença no trânsito é gritante porque ela ceifa vidas diante de nossos olhos. Mas ela está em toda parte, em várias situações de nossa vida, é um problema de cada um de nós. Se trabalhássemos para vencê-la - e permitam-me sonhar mais um pouco - , vislumbro a possibilidade de as segundas-feiras, até mesmo elas!, serem um tantinho melhores.

sábado, 11 de junho de 2011

dia dos namorados

Vi no Zé Simão a piada e agora recebi por email...e quer saber? é isso mesmo!


...e daí que eu vou passar o dia dos namorados sem namorado?

Eu também não passo o Dia do Índio com um índio ,

o Dia da Árvore com uma árvore

ou mesmo o Dia de Finados com um defunto..."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

dos amores invisíveis

(Esta imagem veio daqui)
Todos devem ter visto a campanha da Vivo para o dia dos namorados, que nos saiu um interessante videoclipe da música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana (segue link para quem esteve em Marte nos últimos dias). Tudo vai bem, uma profusão de bugigangas hi-tech que sequer podiam ser concebidas no mundo real à época em que a canção foi composta...até que o vídeo vai chegando ao final e surge a mensagem: "Essa é uma homenagem da Vivo a todos os Eduardos e Mônicas, etc." Então surgem mais nomes de casais que entre outros tantos que "juntos escrevem suas próprias histórias de amor".

Será que se adivinha do que vamos falar? Não? Bem, vamos lá...

Não há nenhum casal LGBT entre os citados. Pior é que a gente sabe que não vai ter, mas ainda assim fica olhando curioso até o final, para ter certeza...da certeza.
Vi o comercial ontem, mas guardei o pensamento só para mim, este é nosso mundo, nosso Brasil, paciência. Mas, no Twitter, o @BuleVoador lançou a provocação: cadê casal gay?




Os tweets geraram reações variadas no microblog, a favor e contra. E acabaram por gerar este post também.
Insisto: o vídeo é bacana. Mas deve-se dizer também que é válido notar a ausência de casais gays, sim. Não se trata de patrulhamento. Ora, a exclusão está em toda parte. Será que todo lugar a que vamos está preparado para receber deficientes físicos? Você já imaginou a situação de um deficiente visual ou auditivo numa escola? Da mesma forma para o público LGBT (que não é portador de deficiência por ser público LGBT, POR FAVOR): não existe uma heteronormatividade que, alheia ou não à nossa vontade, impõe comportamentos e juízos de valor? Pois é...
(Percebam que não falei em preconceito, mas em exclusão, que é o que de fato ocorre na propaganda. Seria leviano falar em homofobia, não houve insulto ou ofensa moral de nenhuma espécie no filme.)
Mas alguém deve estar aí dizendo, "mas a música é Eduardo e Mônica, por que você acha que tem de ter um casal de homens ou de mulheres aí?" Em partes. Primeiro, não acho que tem de ter, e sim que poderia ter, como ação afirmativa, de inclusão. Prossigo invertendo a pergunta: por que você acha que não tem de ter? O mundo hoje está um tanto diferente do que era nos anos 80. E não só por causa dos celulares 3G e demais gadgets bacaninhas. Devagar, mas bem devagar mesmo, nossa sociedade vem se tornando mais sensível à questão da diversidade sexual. São tantos gays/lésbicas assumidos/as hoje, você certamente conhece algum. Ou alguns. Ou muitos. Isso era mais difícil no passado. Não que hoje as coisas sejam um mar de rosas, ainda temos de suportar Bolsonaros e Malafaias estimulando o ódio que ainda mantém o Brasil como detentor do triste título de país que mais mata LGBTs. Nem leis antihomofobia a gente consegue ver aprovadas. Mas, enfim, vocês pegaram a ideia de devagar. As coisas caminham num sentido de maior aceitação das sexualidades.
Aí a Vivo decide que não vai entrar nessa.
A Vivo não entra nessa, mesmo com o momento favorável para um posicionamento humanitário. Mesmo com tantos homossexuais confiantes para dizer o que são - e, com certeza, tantos outros querendo muito ter coragem para juntar-se a eles. Mesmo com o fato de que um dos compositores de Eduardo e Mônica, o falecido Renato Russo, era bissexual (aquela outra música, que diz "gosto de meninos e meninas", lembra?) e certamente ADORARIA ver a menção de outros casais, não-heteros, numa peça escrita sobre uma obra sua.
Então, por que a Vivo não entrou nessa?
Voltemos a primeira frase deste post, mais precisamente a um trechinho dela: campanha da Vivo para o dia dos namorados. Aí está a resposta. Capitalismo. Negócios. Estamos falando de uma propaganda. Propagandas divulgam produtos. Produtos que têm de vender. Se eu quero vender, não posso correr riscos. E associar sua marca de alguma forma à homossexualidade, numa peça publicitária de tão grande alcance (o vídeo tem quase 2 milhões de visitas em dois dias), pelo jeito, é visto como um risco, sim. Talvez tenha ocorrido a alguém do staff do filme colocar, digamos, uma Luana e Renata ali, mas, se ocorreu, a ideia deve ter sido imediatamente abortada. Para que correr o risco? Pelo menos não seremos ofensivos, porque isso também seria um tiro no pé (ainda maior? quem sabe).
Então, que gays e lésbicas em relacionamentos se sintam de alguma forma incluídos entre os "outros tantos casais" citados no final do clipe. Pelo menos até que alguma empresa brasileira decida que vale correr o "risco" de tirar o amor entre iguais da invisibilidade que lhes foi imposto. Qual se habilitaria? Na França, o McDonalds - entre tantas outras - já chegou lá. Este é o comercial que o @BuleVoador citou: